terça-feira, 3 de novembro de 2026

O Galo é tetra: a CBF só precisa homologar o que o campo já julgou

 

O Galo é tetra: a CBF só precisa homologar o que o campo já julgou

Se o Torneio dos Campeões de 1937 virou Brasileirão, a Copa dos Campeões de 1978 merece o mesmo exame. Isonomia não escolhe camisa.

Por Gustavo Lopes Pires de Souza



22 de agosto de 1978. Atlético e São Paulo empatam sem gols na final da Copa dos Campeões do Brasil. Nos pênaltis, 4 a 2 para o Galo.

Era a decisão de um torneio criado para reunir os campeões brasileiros desde 1971. O Atlético, primeiro campeão do Brasileirão em formato de liga, voltava a ser o campeão dos campeões.

Quase meio século depois, essa conquista ainda espera seu lugar na contagem oficial. Defendo que ela seja reconhecida. Com ela, o Galo é tetracampeão brasileiro.

O precedente que o próprio Atlético construiu

Em 25 de agosto de 2023, a CBF reconheceu o Torneio dos Campeões de 1937 como o primeiro Campeonato Brasileiro. O Atlético passou a ser oficialmente tricampeão: 1937, 1971 e 2021.

Vale lembrar o formato daquele torneio. Ele reuniu campeões estaduais, entre eles Atlético, Fluminense, Portuguesa e Rio Branco. Era um torneio entre campeões.

Se um torneio entre campeões estaduais vale como Brasileirão, um torneio entre campeões brasileiros tem, no mínimo, o mesmo direito de ser examinado. O argumento é de lógica antes de ser de paixão.

Isonomia não escolhe camisa

No Direito, casos iguais merecem tratamento igual. A CBF já aplicou essa régua duas vezes.

Em 2010, incorporou a Taça Brasil e o Robertão à lista de campeões. Em 2023, reconheceu 1937. Nos dois casos, aceitou que nome, formato e abrangência diferentes não impedem o reconhecimento.

O art. 217 da Constituição garante às entidades desportivas autonomia de organização e funcionamento. Cabe à CBF dizer quem é campeão brasileiro. Mas autonomia não é arbítrio.

O critério que valeu para 1937 precisa valer para 1978.

O campeão dos campeões

A Copa dos Campeões de 1978 reuniu Atlético, Vasco e São Paulo. O Galo eliminou o Vasco na semifinal, com vitória por 2 a 1 e empate por 1 a 1.

Na final, encontrou o São Paulo, campeão brasileiro de 1977. Meses antes, o tricolor havia vencido o próprio Atlético na decisão do Brasileirão, nos pênaltis, em Belo Horizonte.

Em 1978, a resposta veio do mesmo jeito: pênaltis. O Galo superou o campeão brasileiro em exercício e levantou a taça.

O torneio deveria ter mais participantes. Palmeiras e Guarani desistiram, e o Internacional foi excluído.

Isso não apaga o título: quem entrou em campo disputou, e quem venceu, venceu. Mas é a principal objeção, e precisa ser enfrentada.

Ano

Competição

Situação

1937

Torneio dos Campeões

Reconhecido pela CBF em 2023

1971

Campeonato Nacional de Clubes

Oficial

1978

Copa dos Campeões do Brasil

Aguarda reconhecimento

2021

Campeonato Brasileiro Série A

Oficial

 

As objeções e as respostas

1.      "Em 1978 já havia Brasileirão." A unificação já admite dois títulos brasileiros do Palmeiras em 1967, pela Taça Brasil e pelo Robertão. Um título por temporada não é requisito absoluto da contagem.

2.      "Faltaram campeões." O torneio de 1937 também não reuniu os campeões de todos os estados. A régua não pode exigir de 1978 o que não exigiu de 1937.

3.      "Era um torneio de campeões, não um campeonato nacional." Exatamente como em 1937. E esse formato já foi aceito como Brasileirão.

Nada disso torna o reconhecimento automático. Torna obrigatória uma análise séria, com a mesma régua usada antes.

O caminho: dossiê, como em 1937

O título de 1937 não caiu do céu. O Atlético entregou à CBF um dossiê documental e sustentou o pedido até a decisão.

O caminho para 1978 é o mesmo. Regulamento, súmulas, imprensa da época e atos da CBD, reunidos em um pedido formal que exija decisão fundamentada.

O momento é oportuno. A CBF analisa o pedido de Sport, Ceará e Fortaleza sobre o Torneio Norte-Nordeste, protocolado em outubro de 2025. A entidade terá de dizer qual régua usa.

Que seja a mesma para todos. Inclusive para o Galo.

Falta a homologação

A torcida atleticana conhece de cor o título de campeão dos campeões. Ele nasceu em 1937 e se repetiu em 1978.

O campo já julgou. Os pênaltis transitaram em julgado há 48 anos. Falta à CBF apenas homologar a sentença.

Quando isso acontecer, a conta será simples: 1937, 1971, 1978 e 2021. Tetracampeão brasileiro.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Lula ainda pode virar a eleição? O tempo, as pesquisas e o fenômeno do voto envergonhado

 

Lula ainda pode virar a eleição? O tempo, as pesquisas e o fenômeno do voto envergonhado

Por Gustavo Lopes Pires de Souza

Com a eleição marcada para domingo, o presidente Lula ainda demonstra potencial de recuperação, mas enfrenta dois adversários importantes: a vantagem de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e o pouco tempo disponível para transformar uma tendência em votos.


A política tem uma característica fascinante: muitas vezes, os movimentos eleitorais começam a ser percebidos antes mesmo de aparecerem nas pesquisas. Entretanto, existe uma distância considerável entre identificar uma tendência e afirmar que ela efetivamente se consolidou.

Estamos na quarta-feira, a apenas quatro dias da eleição presidencial, e minha percepção é de que ainda existe espaço para uma virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro. A questão, contudo, é saber se haverá tempo suficiente para isso.

Na semana passada, observei sinais de recuperação do presidente. Não apenas pelos números divulgados pelos institutos de pesquisa, mas também pelo ambiente político, pelas conversas cotidianas e pela repercussão de determinadas medidas governamentais.

Havia, na minha avaliação, um movimento de aproximação que poderia ganhar intensidade na reta final da campanha.

Entretanto, depois do debate presidencial e da repercussão de uma entrevista que movimentou o noticiário político, tive a impressão de que esse impulso perdeu parte da força.

Não significa que tenha desaparecido. Mas talvez tenha deixado de crescer na velocidade necessária.

O problema de Lula não é apenas conquistar votos. É conquistar votos a tempo.

As pesquisas eleitorais mais recentes, consideradas no cenário desta análise, ainda apresentam Flávio Bolsonaro numericamente à frente, embora alguns levantamentos indiquem empate técnico.

É importante compreender que empate técnico não significa igualdade absoluta entre os candidatos. Significa que a diferença observada está dentro da margem de erro informada pelo instituto, sem permitir afirmar, com o nível de confiança adotado, qual candidato lidera efetivamente.

Mas existe também uma dimensão política dos números.

Quando um candidato aparece sucessivamente à frente, mesmo por diferenças pequenas, cria-se uma percepção de vantagem que pode influenciar o comportamento de eleitores, apoiadores e lideranças políticas.

Por outro lado, uma sequência consistente de pesquisas mostrando recuperação do adversário pode alimentar a expectativa de virada e estimular a mobilização eleitoral.

É justamente nesse ponto que Lula enfrenta sua maior dificuldade.

Não basta reduzir a distância. É necessário demonstrar que a recuperação possui intensidade suficiente para ultrapassar o adversário antes da abertura das urnas.

E o calendário já não oferece muito espaço para isso.

O voto envergonhado pode surpreender novamente?

Existe outro elemento que considero fundamental nessa análise: o chamado voto envergonhado.

Trata-se do comportamento de eleitores que, por diferentes razões, evitam revelar publicamente suas preferências políticas ou podem até omiti-las durante entrevistas eleitorais.

Em um ambiente marcado pela polarização, pelo julgamento social e pela crescente hostilidade entre grupos políticos, não seria surpreendente encontrar pessoas pouco dispostas a declarar determinadas escolhas.

No Brasil, esse fenômeno costuma ser associado especialmente a segmentos do eleitorado conservador e bolsonarista.

É possível que alguns eleitores prefiram não revelar sua intenção de voto em Flávio Bolsonaro, sobretudo em determinados ambientes sociais.

Entretanto, precisamos ter cuidado para não transformar uma hipótese sociológica em certeza estatística.

Diferenças entre pesquisas e resultados eleitorais podem decorrer de diversos fatores: mudanças de opinião nos últimos dias, dificuldades de amostragem, abstenção, comparecimento desigual dos grupos sociais e limitações metodológicas.

Portanto, não seria tecnicamente correto atribuir automaticamente eventuais erros das pesquisas à existência de um eleitorado conservador oculto.

Ainda assim, considero que a possibilidade merece atenção.

Se houver uma parcela relevante de eleitores de Flávio Bolsonaro que não esteja sendo adequadamente captada pelos levantamentos, a vantagem efetiva do candidato poderá ser maior

Boca Juniors, Betsson e a proibição das bets: quando o futebol internacional esbarra na legislação brasileira

 

Boca Juniors, Betsson e a proibição das bets: quando o futebol internacional esbarra na legislação brasileira

Por Gustavo Lopes Pires de Souza

O episódio ocorrido no Maracanã reacende o debate sobre os limites territoriais da legislação brasileira, a segurança jurídica dos contratos de patrocínio e a responsabilidade dos clubes estrangeiros.

O futebol é globalizado, mas a legislação continua sendo territorial. Essa constatação, aparentemente simples, está no centro de uma controvérsia jurídica que envolve o Boca Juniors, a empresa de apostas Betsson e a recente proibição da publicidade de apostas esportivas no Brasil.

Na partida contra o Vasco, disputada no Maracanã, no dia 20 de outubro, o clube argentino entrou em campo exibindo normalmente a marca de sua patrocinadora no uniforme. O problema é que a Medida Provisória nº 1.394/2026 estabeleceu restrições à publicidade e ao patrocínio de apostas de quota fixa em território brasileiro.

Surge, portanto, uma pergunta interessante: um clube estrangeiro, patrocinado por uma empresa legalmente autorizada em seu país, pode ser punido por exibir essa marca durante uma partida realizada no Brasil?

A resposta exige mais do que uma interpretação literal da legislação. Envolve questões de Direito Internacional Privado, Direito Desportivo, Direito do Consumidor e segurança jurídica.

A territorialidade da legislação brasileira

O primeiro aspecto a considerar é o princípio da territorialidade.

Como regra, as atividades desenvolvidas em território brasileiro submetem-se à legislação nacional, independentemente da nacionalidade das pessoas físicas ou jurídicas envolvidas.

O artigo 16 da MP nº 1.394/2026, conforme sua redação divulgada, proíbe ações de comunicação, publicidade, propaganda, marketing e patrocínio relacionadas às apostas de quota fixa no Brasil.

A norma não estabelece exceção expressa para clubes estrangeiros ou competições internacionais.

Sob essa perspectiva, a utilização da marca Betsson no uniforme do Boca Juniors, durante uma partida disputada no Maracanã, pode caracterizar uma infração administrativa.

O argumento de que o contrato foi celebrado na Argentina não seria, isoladamente, suficiente para afastar a incidência da legislação brasileira.

Entretanto, considero necessário fazer uma distinção importante: a validade de um contrato internacional não se confunde com a possibilidade de executar todas as suas obrigações em qualquer território.

O contrato entre Boca Juniors e Betsson pode ser perfeitamente válido à luz da legislação argentina e, ainda assim, encontrar limitações quanto à exposição da marca em território brasileiro.

Isso não significa que o contrato deva ser anulado. Significa apenas que determinadas obrigações publicitárias podem sofrer restrições territoriais.

A camisa do jogador também é publicidade?

Não tenho dúvidas de que o patrocínio estampado no uniforme representa uma modalidade de comunicação comercial.

Aliás, o valor econômico desses contratos decorre justamente da exposição da marca aos torcedores, aos espectadores das transmissões e aos consumidores em geral.

A camisa de um clube não é apenas um uniforme esportivo. É também um importante veículo publicitário.

Existe, contudo, uma particularidade.

Diferentemente das placas eletrônicas de publicidade, que podem apresentar anúncios distintos conforme o país de transmissão, a marca estampada no uniforme acompanha fisicamente o atleta.

Uma transmissão internacional pode substituir virtualmente determinada publicidade. Já a camisa utilizada dentro do estádio continua exibindo a marca aos torcedores presentes.

Portanto, a discussão não se limita à transmissão televisiva destinada ao público brasileiro. Envolve uma exposição comercial efetivamente realizada no território nacional.

E os contratos assinados antes da proibição?

Aqui encontramos um dos pontos mais delicados da controvérsia.

O ordenamento jurídico brasileiro protege o ato jurídico perfeito e estabelece garantias relacionadas à segurança jurídica e à estabilidade das relações contratuais.

Isso, entretanto, não significa que contratos anteriores estejam automaticamente imunes a alterações legislativas que disciplinem os efeitos futuros de determinada atividade econômica.

O artigo 17 da medida provisória, segundo o texto divulgado, preserva determinadas publicidades acessórias contidas em materiais publicados antes da edição da norma.

Essa ressalva não representa, necessariamente, autorização para continuar executando novas ações publicitárias.

Em outras palavras, uma coisa é preservar um conteúdo produzido anteriormente. Outra é realizar uma nova exposição comercial depois da entrada em vigor da proibição.

Ainda assim, entendo que o legislador deveria ter enfrentado expressamente a situação dos contratos internacionais preexistentes.

A ausência de regras claras de transição pode gerar conflitos contratuais, pedidos de reequilíbrio econômico e discussões sobre a responsabilidade pelos prejuízos decorrentes da impossibilidade de execução de determinadas obrigações.

O futebol movimenta contratos milionários. Não se pode ignorar essa realidade.

O Boca Juniors pode ser multado?

Em tese, sim.

O artigo 18 da MP prevê consequências administrativas para o descumprimento das restrições publicitárias, com referência ao sistema de proteção do consumidor.

Isso pode permitir a atuação de autoridades competentes, como os órgãos integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.

Mas existe uma diferença fundamental entre identificar uma possível infração e aplicar efetivamente uma penalidade.

Para que haja sanção, é indispensável a instauração do procedimento adequado, a individualização da conduta, a identificação do responsável e a observância do contraditório e da ampla defesa.

Também será necessário examinar quem efetivamente participou da decisão de manter a publicidade.

O clube? A patrocinadora? A entidade organizadora da competição?

Não considero juridicamente adequado presumir responsabilidade idêntica para todos os envolvidos.

A responsabilização deve observar as obrigações assumidas, a participação de cada agente e os fundamentos legais aplicáveis.

Há, ainda, uma dificuldade prática: a execução de eventual penalidade contra uma entidade estrangeira que não possua patrimônio ou representação suficiente no Brasil.

Isso não afasta a incidência da legislação brasileira, mas demonstra que a efetividade da fiscalização internacional exige instrumentos próprios.

E na Justiça Desportiva? O Boca pode perder pontos?

Aqui precisamos separar duas esferas que frequentemente são confundidas.

Uma infração administrativa não se transforma automaticamente em infração desportiva.

A medida provisória não estabelece, por si só, perda de pontos, alteração do resultado da partida ou exclusão de competições pela exposição de publicidade proibida.

Para que uma punição dessa natureza fosse aplicada, seria necessária a existência de fundamento específico nas normas desportivas pertinentes, respeitando-se a competência dos órgãos julgadores e o devido processo.

O princípio da legalidade, especialmente em matéria sancionatória, impede que penalidades sejam criadas por analogia ou simples interpretação extensiva desfavorável ao acusado.

Portanto, mesmo que se conclua pela existência de uma infração à legislação brasileira, isso não autoriza afirmar que o Boca Juniors deva sofrer punição esportiva.

São regimes jurídicos diferentes, com pressupostos e consequências próprias.

O problema vai muito além do Boca Juniors

O episódio revela uma questão que considero ainda mais relevante.

O futebol contemporâneo é estruturado sobre relações comerciais internacionais. Clubes participam de competições em diferentes países, celebram contratos com patrocinadores multinacionais e possuem obrigações publicitárias que ultrapassam fronteiras.

Quando um país altera suas regras de publicidade, os efeitos podem alcançar contratos firmados em outras jurisdições.

Imagine uma competição internacional envolvendo clubes de diversos países, cada qual submetido a regras próprias sobre publicidade de apostas, bebidas alcoólicas e outros produtos sujeitos a restrições.

Como compatibilizar essas legislações?

Quem assume o custo de adaptar os uniformes?

A responsabilidade será do clube visitante, da patrocinadora ou da entidade organizadora?

E se a alteração legislativa ocorrer durante a execução de um contrato de longa duração?

Essas perguntas demonstram que o problema não pode ser resolvido apenas com a afirmação de que a lei brasileira deve ser cumprida.

É necessário construir mecanismos de previsibilidade e cooperação entre clubes, patrocinadores, federações, confederações e autoridades reguladoras.

Minha posição: a lei deve ser respeitada, mas precisa oferecer segurança jurídica

Entendo que, inexistindo exceção legal aplicável, o fato de o Boca Juniors ser argentino não o coloca fora do alcance das normas brasileiras durante uma partida realizada no Maracanã.

A nacionalidade do clube não pode funcionar como uma espécie de imunidade jurídica.

Por outro lado, considero que a legislação precisa ser suficientemente clara para que seus destinatários saibam, antecipadamente, quais condutas são permitidas e quais consequências poderão enfrentar.

Uma medida provisória que interfere diretamente em contratos internacionais de patrocínio deveria disciplinar expressamente situações como essa.

O Congresso Nacional, ao apreciar a conversão da MP em lei, tem a oportunidade de aperfeiçoar o texto, esclarecendo o tratamento destinado aos clubes estrangeiros, às competições internacionais e aos contratos celebrados anteriormente.

Também seria recomendável estabelecer procedimentos objetivos para adaptação de uniformes, sinalização publicitária e transmissões internacionais.

Isso não significa flexibilizar indiscriminadamente a proteção do consumidor. Significa produzir uma legislação tecnicamente consistente, capaz de atingir seus objetivos sem gerar insegurança jurídica desnecessária.

O Estado pode restringir a publicidade de uma atividade econômica. O que não deve fazer é deixar indefinidas as consequências práticas dessa restrição para relações jurídicas complexas.

No caso do Boca Juniors, a eventual responsabilização administrativa dependerá de apuração específica. Não existe fundamento para presumir uma punição esportiva automática.

Mas o episódio deixa uma lição importante: no futebol globalizado, os contratos atravessam fronteiras, enquanto as leis continuam exigindo respeito dentro de seus territórios.

O desafio do Direito é justamente compatibilizar essas duas realidades.


Gustavo Lopes Pires de Souza
Jurista, professor e consultor. Mestre em Direito Desportivo e autor de obras sobre Direito, esporte e legislação brasileira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Equipe de futebol 7 com a marca do América processa a União após MP das apostas

 

Equipe de futebol 7 com a marca do América processa a União após MP das apostas

Ação na Justiça Federal pede indenização e autorização provisória para usar uniformes já fabricados com a marca da antiga patrocinadora

O CASO EM RESUMO

A CRC Jornalismo, Marketing e Consultoria Esportiva, dona da marca FUTCLASS e responsável pela equipe de futebol 7 que joga com a marca licenciada do América Futebol Clube, entrou com ação contra a União na Justiça Federal em Belo Horizonte.

O motivo é a Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro. A MP proibiu as apostas de quota fixa e todo patrocínio ligado a elas.

O prazo para retirar a marca das patrocinadoras foi de apenas dez dias. Não houve regra de transição para quem tinha contrato em vigor.

A equipe perdeu de uma vez o patrocínio e o uniforme. A marca da patrocinadora foi aplicada por sublimação, ou seja, faz parte do tecido e não sai sem destruir a camisa.

DADOS DO PROCESSO

•     Processo: 6103046-32.2026.4.06.3800

•     Juízo: 4ª Vara Cível e JEF Adjunto de Belo Horizonte (Justiça Federal, 6ª Região)

•     Autora: CRC Jornalismo, Marketing e Consultoria Esportiva Ltda. (FUTCLASS)

•     Ré: União (Fazenda Nacional)

•     Valor da causa: R$ 117.758,00

•     Situação: pedido de tutela de urgência ainda não apreciado

OS NÚMEROS DO PREJUÍZO

•     Patrocínio perdido: R$ 30.000,00, referentes às parcelas de outubro, novembro e dezembro de 2026 do contrato de patrocínio, de R$ 10.000,00 mensais.

•     Novo enxoval: R$ 27.758,00, valor orçado para confeccionar novos uniformes de jogo e treino, mais frete.

•     Perda de uma chance: estimativa de R$ 60.000,00 pela chance concreta de renovação do patrocínio para 2027, a ser fixada pelo juiz conforme a prova.

O QUE A EQUIPE PEDE

•     Autorização para usar os uniformes já fabricados por até 60 dias, ou até a entrega do novo enxoval, somente em jogos e treinos oficiais.

•     Que a União não aplique multa ou sanção por esse uso provisório, inclusive por fotos e vídeos em que a marca apareça.

•     Como alternativa, autorização para usar as camisas com a marca coberta por tarja, sem que isso seja tratado como infração.

•     Indenização pelos prejuízos causados pela MP.

O QUE A AÇÃO NÃO PEDE

A equipe não pede a volta das apostas nem da publicidade das casas de apostas.

O pedido proíbe expressamente qualquer ação promocional: nada de menção, link, QR code, chamada para apostar ou publicação patrocinada. A patrocinadora também não paga nada nesse período.

A discussão é sobre o prazo e sobre quem arca com o prejuízo, não sobre a política pública em si.

OS ARGUMENTOS, EM LINGUAGEM SIMPLES

Contrato assinado de boa-fé. O patrocínio foi firmado em novembro de 2025 com empresa que operava legalmente, sob lei federal e regulamentação do próprio Ministério da Fazenda. O Estado criou e autorizou esse mercado.

Prazo impossível de cumprir. Dez dias não bastam para aprovar um novo modelo de uniforme junto ao clube licenciante e produzi-lo em escala industrial.

Havia caminhos menos drásticos. Respeitar contratos até o fim da temporada, permitir o uso do estoque já produzido ou fixar um prazo realista de transição.

O Estado responde pelo dano. Mesmo que a MP seja considerada válida, a Constituição obriga a União a indenizar quem sofre um prejuízo especial e fora do comum por uma decisão tomada em nome de toda a sociedade.

POR QUE O CASO IMPORTA

Projetos esportivos de base e de modalidades menores dependem de patrocínio para existir. Muitos foram fechados com operadoras de apostas enquanto a atividade era autorizada pelo governo federal.

A ação discute se uma mudança de regras dessa dimensão pode ser imposta em dez dias, sem transição e sem qualquer compensação a quem contratou dentro da lei.

PRÓXIMOS PASSOS

O juízo vai decidir primeiro o pedido de urgência sobre o uso dos uniformes. Depois, a União será citada para apresentar defesa.

A constitucionalidade da MP também é questionada diretamente no Supremo Tribunal Federal, em ações ainda sem decisão liminar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Denúncia envolvendo diretor do Mackenzie ganha novo capítulo após clube abrir processo contra denunciante

 

Denúncia envolvendo diretor do Mackenzie ganha novo capítulo após clube abrir processo contra denunciante

Um episódio envolvendo o Mackenzie Esporte Clube, de Belo Horizonte, ganhou repercussão nas redes sociais em setembro de 2026 após acusações de manifestações consideradas preconceituosas contra a população LGBTQIA+ atribuídas ao diretor de Esportes da instituição.

A denúncia foi tornada pública pelo jurista, professor e consultor Gustavo Lopes Pires de Souza. Segundo seu relato, o episódio teve início após uma publicação em que defendia a dignidade, o respeito e os direitos da população LGBTQIA+.

De acordo com Souza, o dirigente teria reagido à publicação classificando a pauta abordada como “piada”. Ainda segundo o denunciante, outras manifestações posteriores teriam ocorrido nas redes sociais, ampliando o conflito.

O site oficial do Mackenzie Esporte Clube identifica Carlos Roberto Gonçalves da Rocha como diretor de Esportes da entidade no biênio 2025/2027.

Clube abre procedimento contra quem fez a denúncia

O caso ganhou um novo capítulo após a reação institucional do próprio Mackenzie.

Segundo Gustavo Souza, em vez de instaurar procedimento para apurar inicialmente a conduta atribuída ao diretor de Esportes, o clube abriu processo interno contra o próprio denunciante.

A acusação seria de que Gustavo teria “prejudicado a imagem do clube” por meio das manifestações realizadas em suas redes sociais ao tornar público o episódio e cobrar providências da instituição.

A situação acrescenta uma nova dimensão à controvérsia.

De um lado, está a necessidade de se apurar o conteúdo e o contexto das manifestações atribuídas ao dirigente. De outro, passa a ser discutida a própria resposta institucional adotada diante de quem tornou pública a denúncia.

A abertura do procedimento contra Gustavo, por si só, não permite concluir que houve retaliação. Essa avaliação depende do conteúdo do processo, das normas internas do clube, das garantias oferecidas ao acusado e da existência — ou não — de apuração independente sobre a conduta originalmente denunciada.

Ainda assim, a sequência dos acontecimentos levanta um questionamento relevante sobre governança e integridade: quando uma instituição recebe uma denúncia envolvendo um de seus dirigentes, quais procedimentos devem ser adotados para garantir uma apuração imparcial e evitar conflitos de interesse?

Pedidos de providências

Gustavo afirma ter solicitado esclarecimentos e providências institucionais sobre a conduta atribuída ao dirigente, além de buscar a análise do episódio perante instâncias relacionadas à ética esportiva.

A controvérsia ultrapassa, portanto, uma discussão individual nas redes sociais. Ela envolve um integrante da direção de uma tradicional entidade esportiva e coloca em debate temas como diversidade, liberdade de expressão, governança, integridade institucional e proteção de quem apresenta denúncias.

Homofobia e esporte

O debate sobre preconceito relacionado à orientação sexual permanece presente no esporte brasileiro.

Atletas e profissionais do esporte têm relatado episódios de ataques e manifestações homofóbicas, aumentando a pressão para que clubes, federações e confederações adotem mecanismos claros de prevenção, recebimento de denúncias e responsabilização.

Nesse contexto, a discussão não se limita à existência de políticas de diversidade no papel. Também envolve a maneira como as instituições reagem concretamente quando uma denúncia atinge pessoas que ocupam posições de poder dentro de sua própria estrutura.

Liberdade de expressão e responsabilidade

O episódio também apresenta questões jurídicas que exigem cautela.

A liberdade de expressão protege manifestações, críticas e cobranças públicas, mas não é absoluta. Da mesma forma, a proteção da imagem de uma instituição não significa, automaticamente, que críticas ou denúncias públicas sejam ilícitas.

A análise depende do conteúdo das publicações, de sua veracidade ou base factual, do contexto em que foram feitas e dos limites estabelecidos pela legislação e pelas normas internas aplicáveis.

Também não se pode tratar a acusação de homofobia como fato definitivamente estabelecido antes da devida apuração. O dirigente citado deve ter assegurados o contraditório e o direito de apresentar sua versão.

Mas a mesma preocupação com o devido processo deve alcançar quem apresenta a denúncia.

O caso, portanto, passa a colocar duas questões distintas sobre a mesa: o que efetivamente foi dito pelo diretor e como o Mackenzie reagiu depois que essas manifestações foram denunciadas publicamente.

São duas perguntas que merecem respostas independentes — e uma não deveria impedir a apuração da outra.

Denúncia de comentários contra pauta LGBTQIA+ envolvendo diretor do Mackenzie gera pedidos de apuração

 

Denúncia de comentários contra pauta LGBTQIA+ envolvendo diretor do Mackenzie gera pedidos de apuração

Um episódio envolvendo o Mackenzie Esporte Clube, de Belo Horizonte, ganhou repercussão nas redes sociais em setembro de 2026 após acusações de manifestações consideradas preconceituosas contra a população LGBTQIA+ atribuídas ao diretor de Esportes da instituição.

A denúncia foi tornada pública pelo jurista, professor e consultor Gustavo Lopes Pires de Souza. Segundo seu relato, o episódio teve início após uma publicação em que defendia a dignidade, o respeito e os direitos da população LGBTQIA+.

De acordo com Souza, o dirigente teria reagido à publicação classificando a pauta abordada como “piada”. Ainda segundo o denunciante, outras manifestações posteriores teriam ocorrido nas redes sociais, ampliando o conflito.

O site oficial do Mackenzie Esporte Clube identifica Carlos Roberto Gonçalves da Rocha como diretor de Esportes da entidade no biênio 2025/2027.

Pedido de providências

Diante do episódio, Gustavo Souza afirma ter solicitado providências institucionais e esclarecimentos sobre a conduta atribuída ao dirigente.

A controvérsia ultrapassa a discussão entre duas pessoas nas redes sociais porque envolve a atuação de um integrante da direção de uma entidade esportiva tradicional e levanta questionamentos sobre responsabilidade institucional, diversidade e mecanismos internos destinados à apuração de eventuais violações éticas.

Também foram solicitadas providências relacionadas às instâncias responsáveis pela ética esportiva, incluindo pedido de análise do episódio no âmbito das entidades competentes.

Até a publicação desta matéria, não foi localizada manifestação pública oficial do Mackenzie Esporte Clube, em seus canais institucionais pesquisados, especificamente sobre as acusações relatadas por Gustavo Souza.

Homofobia e esporte

O debate sobre preconceito relacionado à orientação sexual permanece presente no esporte brasileiro.

Recentemente, o líbero Douglas Pureza, da seleção brasileira masculina de vôlei, relatou publicamente episódios de ataques homofóbicos e falou sobre como o preconceito influenciou seu comportamento ao longo da carreira.

Casos dessa natureza reforçam a discussão sobre o papel de clubes, federações e demais entidades esportivas não apenas na formação de atletas, mas também na construção de ambientes pautados pelo respeito e pela não discriminação.

Liberdade de expressão não encerra o debate

O episódio envolvendo o Mackenzie também suscita uma questão jurídica importante: a liberdade de expressão protege a manifestação de opiniões, inclusive opiniões controversas, mas não elimina automaticamente eventual responsabilidade por manifestações discriminatórias ou ofensivas.

Por outro lado, a classificação jurídica de uma determinada manifestação como ilícita exige análise do contexto, do conteúdo efetivamente publicado e das circunstâncias concretas.

Por isso, neste momento, o caso deve ser tratado como uma denúncia que demanda apuração, assegurando-se tanto a análise das manifestações apontadas como discriminatórias quanto o direito de resposta e defesa do dirigente citado.

A controvérsia coloca novamente no centro do debate uma pergunta que ultrapassa o caso concreto: como instituições esportivas devem agir quando integrantes de sua própria direção são acusados publicamente de manifestações incompatíveis com políticas de diversidade, respeito e inclusão?

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O SISTEMA É BRUTO: tente enfrentar quem está no poder e descubra o preço.

 O SISTEMA É BRUTO: tente enfrentar quem está no poder e descubra o preço.

Essa história aconteceu recentemente no esporte brasileiro.

Uma denúncia anônima chegou ao Conselho de Ética de uma confederação esportiva apontando possíveis irregularidades na administração da entidade.

Diante da gravidade das acusações, o presidente do Conselho determinou uma medida cautelar: afastou temporariamente a diretoria por 30 dias e nomeou uma administração provisória para permitir que os fatos fossem investigados.

Preste atenção: não houve condenação.

Era um afastamento cautelar para investigar.

E foi aí que começou o problema.

A reação foi imediata.

A decisão foi publicamente contestada. Disseram que o Conselho de Ética não tinha competência. O caso chegou ao STJD, que suspendeu a medida e determinou o retorno dos dirigentes.

O presidente do Conselho de Ética respondeu sustentando justamente o contrário: o STJD é que não teria competência para interferir naquela investigação ética.

Estava criado um conflito institucional.

Depois disso, três dos cinco integrantes daquele órgão de ética deixaram seus cargos.

E a diretoria que estava sendo investigada permaneceu na administração.

Agora vem a parte mais interessante.

Semanas depois, o jurista Lenio Streck publicou um artigo analisando exatamente esse caso.

E escreveu uma frase fundamental:

“competência não se deduz: ela é atribuída.”

Na análise de Streck, a competência constitucional da Justiça Desportiva está relacionada às competições e às infrações disciplinares. Não significa poder para interferir indistintamente em qualquer investigação ética dentro de uma entidade esportiva.

Mas talvez o trecho mais inquietante do artigo seja outro.

Streck observa que, depois de toda a crise, surgiram “sérias dúvidas quanto à capacidade do órgão de continuar as investigações com independência”, justamente porque três das cinco cadeiras estavam vagas enquanto a diretoria investigada permanecia à frente da entidade.

E é aqui que essa história deixa de ser sobre esporte.

Ela passa a ser sobre poder.

É muito fácil escrever “compliance” no estatuto.

É muito fácil criar Conselho de Ética.

É muito fácil falar em governança, transparência e independência.

Difícil é aceitar um órgão de controle quando ele começa efetivamente a controlar.

Porque instituições não são verdadeiramente testadas quando os órgãos de fiscalização concordam com quem está no comando.

Elas são testadas quando esses órgãos dizem NÃO.

E fica uma pergunta: quem fiscaliza o poder consegue contrariar o poder sem ser engolido por ele?

Porque criar mecanismos de controle é fácil.

Garantir independência para que eles funcionem quando incomodam quem está no comando...

aí o sistema é bruto.

Perdeu dinheiro em bets? Justiça manda devolver R$ 337 mil a apostador com ludopatia

 

Perdeu dinheiro em bets? Justiça manda devolver R$ 337 mil a apostador com ludopatia

Uma decisão da Justiça do Distrito Federal reacendeu uma discussão que tende a crescer muito nos próximos anos: até onde vai a responsabilidade das casas de apostas quando o jogador apresenta comportamento compulsivo?

Em sentença proferida pela 3ª Vara Cível de Brasília, apostas realizadas por um consumidor diagnosticado com ludopatia foram declaradas nulas, com condenação da operadora à restituição de R$ 337.086,00, além do pagamento de R$ 10 mil por danos morais.

É uma decisão de primeira instância e, portanto, ainda sujeita a recurso. Mesmo assim, o caso chama atenção porque coloca no centro do debate uma parte da legislação brasileira sobre apostas que muita gente ainda desconhece.

A lei brasileira proíbe pessoas com ludopatia de apostar

A Lei nº 14.790/2023, que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, não trata apenas de autorização, fiscalização e tributação das chamadas bets.

A legislação também estabelece mecanismos de proteção ao apostador.

O art. 26 apresenta uma relação de pessoas impedidas de participar das apostas. Entre elas estão aquelas diagnosticadas com ludopatia por profissional de saúde mental habilitado.

E existe um detalhe jurídico ainda mais relevante.

O §1º do mesmo artigo determina que as apostas realizadas em desacordo com essas proibições são nulas de pleno direito.

Isso muda bastante a discussão.

Em determinadas situações, portanto, a questão jurídica pode deixar de ser simplesmente saber se o consumidor voluntariamente decidiu apostar e passar a envolver outra pergunta:

Aquela aposta poderia juridicamente ter sido realizada?

O que aconteceu no caso de Brasília?

Segundo as informações divulgadas sobre o processo, o consumidor apresentava histórico de transtornos psiquiátricos e posteriormente recebeu diagnóstico de ludopatia.

Durante determinado período, teria realizado apostas de valores elevados em intervalos muito curtos.

A discussão levada ao Judiciário envolveu justamente a capacidade da plataforma de identificar esse padrão de comportamento e as providências adotadas — ou não — diante dos sinais de compulsividade.

A sentença reconheceu a existência de relação de consumo e entendeu que houve falha na prestação do serviço.

Com isso, determinou a restituição de R$ 337.086,00, além de indenização de R$ 10 mil por danos morais.

Isso significa que todo apostador que perdeu dinheiro pode pedir a devolução?

Não.

Esse é provavelmente o ponto mais importante para evitar uma interpretação equivocada da decisão.

Perder dinheiro apostando, por si só, não significa que exista direito à restituição.

Também seria juridicamente precipitado imaginar que alguém possa simplesmente obter um diagnóstico posterior e, automaticamente, exigir tudo aquilo que perdeu anteriormente.

Cada situação dependerá das provas existentes.

Entre os elementos que podem ganhar importância estão o diagnóstico médico, o período em que os sintomas já estavam presentes, o histórico de apostas, a frequência e os valores movimentados, eventuais tentativas de autoexclusão ou bloqueio, as comunicações mantidas com a plataforma e os mecanismos de jogo responsável efetivamente adotados pela empresa.

A tecnologia das bets também pode aumentar sua responsabilidade

Existe outro aspecto muito interessante nessa discussão.

As plataformas digitais possuem enorme capacidade de processamento de dados.

Elas conseguem identificar horários, valores, frequência das apostas, depósitos sucessivos, comportamento do jogador e inúmeros outros padrões de utilização.

Se a tecnologia permite conhecer profundamente o comportamento do consumidor para melhorar a experiência e aumentar o engajamento, surge uma questão jurídica inevitável:

até que ponto essa mesma tecnologia deve ser utilizada para identificar sinais evidentes de jogo problemático?

Esse debate tende a ocupar cada vez mais espaço no Direito do Consumidor.

O modelo regulatório brasileiro não parece admitir que a operadora simplesmente disponibilize a plataforma e transfira integralmente ao jogador todas as consequências do jogo.

Existem deveres legais relacionados ao chamado jogo responsável e à prevenção dos transtornos associados às apostas.

Ludopatia não é simplesmente “falta de controle”

Outro cuidado importante é não reduzir o problema a uma questão moral.

A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida como transtorno relacionado ao comportamento de jogar e pode envolver perda significativa do controle sobre essa atividade.

Por isso, quando existe diagnóstico e comportamento compulsivo efetivamente demonstrados, a tradicional afirmação de que “apostou porque quis” pode não ser suficiente para resolver juridicamente a controvérsia.

É justamente nesse ponto que se encontram Direito Civil, Direito do Consumidor, saúde mental e regulação das apostas.

A decisão cria um precedente obrigatório?

Também não.

Estamos diante de uma sentença de primeira instância, e não de uma tese vinculante fixada pelos tribunais superiores.

A decisão pode ser objeto de recurso e seu entendimento não significa que outros juízes sejam obrigados a decidir da mesma maneira.

Mas isso não diminui a importância do caso.

A sentença demonstra como dispositivos relativamente recentes da Lei nº 14.790/2023 começam a ser utilizados concretamente pelo Judiciário para analisar a responsabilidade das empresas do setor.

Uma nova fronteira do Direito das apostas

Durante muito tempo, a discussão jurídica sobre apostas esteve concentrada principalmente na legalização da atividade, tributação, publicidade e funcionamento das empresas.

Agora começa uma segunda fase.

A pergunta passa a ser também:

quem responde quando a atividade deixa de ser entretenimento e passa a explorar economicamente um comportamento patológico?

A resposta certamente não será a devolução automática de todas as perdas sofridas por apostadores.

Mas também não parece juridicamente sustentável tratar qualquer aposta como manifestação absoluta e irrestrita da autonomia da vontade, independentemente das condições pessoais do consumidor e daquilo que a plataforma sabia — ou tinha condições tecnológicas de identificar.

A decisão de Brasília coloca exatamente essa tensão em evidência.

E, considerando o crescimento exponencial das apostas online no Brasil, é bastante provável que questões semelhantes cheguem com frequência cada vez maior aos tribunais.

O Direito das Bets está apenas começando a ser construído no Brasil.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Nova gestão assume TJD do Futsal Mineiro após período de inatividade e promete rigor e transparência

Nova gestão assume TJD do Futsal Mineiro após período de inatividade e promete rigor e transparência


Após um período de inatividade institucional, foi oficialmente empossada, no dia 27 de março de 2026, a nova composição do Tribunal de Justiça Desportiva do Futsal de Minas Gerais (TJD-Futsal/MG), órgão responsável pelo julgamento das infrações disciplinares e pela garantia da regularidade das competições no estado.

A recomposição do Tribunal ocorre em um contexto de necessidade de reestruturação e fortalecimento da Justiça Desportiva, após o encerramento do mandato anterior sem a imediata renovação da estrutura, o que comprometeu temporariamente o funcionamento regular do órgão.

A nova formação foi construída a partir de indicações dos diversos segmentos do futsal mineiro, incluindo clubes, atletas, arbitragem, OAB e a própria Federação, reunindo profissionais com experiência jurídica e atuação institucional relevante.

Por unanimidade, foi eleito como Presidente do TJD-Futsal/MG o mestre em direito desportivo Gustavo Lopes Pires de Souza, com mandato até dezembro de 2029, tendo como Vice-Presidente o Dr. Thomaz Sousa Lima .

A nova gestão assume com um discurso claro de mudança de postura e fortalecimento institucional.

“A Justiça Desportiva não pode ser instável nem ausente. Ela precisa ser técnica, previsível e, sobretudo, presente. Onde há competição, precisa haver segurança jurídica. Nosso compromisso é restabelecer esse padrão com firmeza e responsabilidade”, afirma o presidente eleito.

Entre as prioridades da nova gestão estão a retomada da regularidade dos julgamentos, o fortalecimento dos procedimentos internos, o respeito rigoroso ao devido processo legal e o aumento da transparência nas decisões.

A expectativa é de que a atuação do Tribunal contribua diretamente para a credibilidade das competições e para a profissionalização do futsal mineiro, em um momento em que o esporte exige cada vez mais organização, governança e segurança institucional.

A nova composição já inicia seus trabalhos com a missão de consolidar um ambiente desportivo mais confiável, estruturado e alinhado às melhores práticas da Justiça Desportiva.