O Galo é tetra: a CBF só precisa homologar o que o campo já
julgou
Se o Torneio
dos Campeões de 1937 virou Brasileirão, a Copa dos Campeões de 1978 merece o
mesmo exame. Isonomia não escolhe camisa.
Por Gustavo
Lopes Pires de Souza
22 de agosto de 1978. Atlético e São Paulo empatam sem gols na final da
Copa dos Campeões do Brasil. Nos pênaltis, 4 a 2 para o Galo.
Era a decisão de um torneio criado para reunir os campeões brasileiros
desde 1971. O Atlético, primeiro campeão do Brasileirão em formato de liga,
voltava a ser o campeão dos campeões.
Quase meio século depois, essa conquista ainda espera seu lugar na
contagem oficial. Defendo que ela seja reconhecida. Com ela, o Galo é
tetracampeão brasileiro.
O precedente que o próprio Atlético construiu
Em 25 de agosto de 2023, a CBF reconheceu o Torneio dos Campeões de 1937
como o primeiro Campeonato Brasileiro. O Atlético passou a ser oficialmente
tricampeão: 1937, 1971 e 2021.
Vale lembrar o formato daquele torneio. Ele reuniu campeões estaduais,
entre eles Atlético, Fluminense, Portuguesa e Rio Branco. Era um torneio entre
campeões.
Se um torneio entre campeões estaduais vale como Brasileirão, um torneio
entre campeões brasileiros tem, no mínimo, o mesmo direito de ser examinado. O
argumento é de lógica antes de ser de paixão.
Isonomia não escolhe camisa
No Direito, casos iguais merecem tratamento igual. A CBF já aplicou essa
régua duas vezes.
Em 2010, incorporou a Taça Brasil e o Robertão à lista de campeões. Em
2023, reconheceu 1937. Nos dois casos, aceitou que nome, formato e abrangência
diferentes não impedem o reconhecimento.
O art. 217 da Constituição garante às entidades desportivas autonomia de
organização e funcionamento. Cabe à CBF dizer quem é campeão brasileiro. Mas
autonomia não é arbítrio.
O critério que valeu para 1937 precisa valer para 1978.
O campeão dos campeões
A Copa dos Campeões de 1978 reuniu Atlético, Vasco e São Paulo. O Galo
eliminou o Vasco na semifinal, com vitória por 2 a 1 e empate por 1 a 1.
Na final, encontrou o São Paulo, campeão brasileiro de 1977. Meses antes,
o tricolor havia vencido o próprio Atlético na decisão do Brasileirão, nos
pênaltis, em Belo Horizonte.
Em 1978, a resposta veio do mesmo jeito: pênaltis. O Galo superou o
campeão brasileiro em exercício e levantou a taça.
O torneio deveria ter mais participantes. Palmeiras e Guarani desistiram, e o Internacional foi excluído.
Isso não apaga o título: quem entrou em campo
disputou, e quem venceu, venceu. Mas é a principal objeção, e precisa ser
enfrentada.
|
Ano |
Competição |
Situação |
|
1937 |
Torneio dos Campeões |
Reconhecido pela CBF em
2023 |
|
1971 |
Campeonato Nacional de
Clubes |
Oficial |
|
1978 |
Copa dos Campeões do Brasil |
Aguarda reconhecimento |
|
2021 |
Campeonato Brasileiro Série
A |
Oficial |
As objeções e as respostas
1. "Em
1978 já havia Brasileirão." A unificação já admite dois títulos
brasileiros do Palmeiras em 1967, pela Taça Brasil e pelo Robertão. Um título
por temporada não é requisito absoluto da contagem.
2. "Faltaram
campeões." O torneio de 1937 também não reuniu os campeões de todos os
estados. A régua não pode exigir de 1978 o que não exigiu de 1937.
3. "Era
um torneio de campeões, não um campeonato nacional." Exatamente como
em 1937. E esse formato já foi aceito como Brasileirão.
Nada disso torna o reconhecimento automático. Torna obrigatória uma
análise séria, com a mesma régua usada antes.
O caminho: dossiê, como em 1937
O título de 1937 não caiu do céu. O Atlético entregou à CBF um dossiê
documental e sustentou o pedido até a decisão.
O caminho para 1978 é o mesmo. Regulamento, súmulas, imprensa da época e
atos da CBD, reunidos em um pedido formal que exija decisão fundamentada.
O momento é oportuno. A CBF analisa o pedido de Sport, Ceará e Fortaleza
sobre o Torneio Norte-Nordeste, protocolado em outubro de 2025. A entidade terá
de dizer qual régua usa.
Que seja a mesma para todos. Inclusive para o Galo.
Falta a homologação
A torcida atleticana conhece de cor o título de campeão dos campeões. Ele
nasceu em 1937 e se repetiu em 1978.
O campo já julgou. Os pênaltis transitaram em julgado há 48 anos. Falta à
CBF apenas homologar a sentença.
Quando isso acontecer, a conta será simples: 1937, 1971, 1978 e 2021.
Tetracampeão brasileiro.

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